Após o recente assassinato de mais uma mulher transexual, a Luna, ocorrido na área de Lisboa, os media concentram-se no aspecto físico das vítimas da forma mais sensacionalista – tornando-o assim mais importante do que o assassinato em si. Seguem-se algumas palavras sobre o assassinato, como se isso uma fosse explicação evidente, natural, da causa de seu assassinato – demorando-se na descrição o mais pormenorizada possível do aspecto físico fora do vulgar da vítima. Nas mãos dos media o mais importantes o mais importante torna-se o físico invulgar da vítima, passando o assassinato para segundo plano.
Falando – dependendo da tentativa (ou não) de não parecerem transfóbicos – de transexual com o corpo de homem (para pudicamente dizer "com pénis"), de homem vestido com roupas de mulher, ou de travesti com seios. Alguns chegam mesmo a falar de homofobia.
A imagem emergente deste tipo de artigos faz da vítima uma monstruosidade apresentada para gáudio da curiosidade pública, sem qualquer respeito pelo seu género ou pela intimidade do seu corpo e dando a impressão de que é quase (ou mesmo absolutamente) normal que este tipo de pessoas sejam assassinadas.A outra imagem veiculada desta forma é a de que ser trans é querer enganar "o mundo" usando um disfarce particularmente bem arranjado que dá a aparência enganosa de homens e mulheres... e se enganam o mundo é evidentemente natural que as pessoas enganadas reajam.
Este tipo de discurso feito pelos media está, infelizmente, longe de ser o caso apenas no que respeita ao homicídio; é o caso de quase todas as emissões, artigos e entrevistas sobre o tema trans.
Os media portugueses, no seu conjunto, satisfazem-se na descrição da precariedade das vidas das pessoas trans – seja a prostituição, o uso de drogas, o estado de seropositividade, de se estar ou não legalizad@ como imigrante em Portugal, de se ter ou não uma Habitação – como se fosse uma escolha das vítimas viver assim, ocultando que a transfobia determina essa mesma precariedade, e apresentando como escandalosa não apenas a “escolha” de se ser trans, como a deste estilo de vida, apresentando as vítimas como pessoas imorais e chocantes, continuando desta outra forma a promover a transfobia, a precariedade das vidas trans e o facto de estas pessoas estarem entre as que mais provavelmente arriscam uma agressão.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Proposta de acção internacional: à escolha 24, 25 ou 26 de Março
Que se faça uma vigília, com velas, em especial memória de Luna e de tod@s @s trans vítimas da transfobia.
A iniciativa partirá de numerosos pequenos e grandes grupos no maior número de cidades possível.
Com cartazes, frente à embaixada ou consulado de Portugal nas cidades onde estes existam, ou em praças frente a ministérios europeus, frente a hospitais psquiátricos ou onde quer que a homofobia se construia.
Sugerimos estas frases:
Luna trans 42 anos brasileira, prostituta assassinada em Lisboa.
Estatisticamente quão maior é o risco de um(a) trans ser agredido comparativamente a ti? E assassinado?
Conforme o país, propomos a frase:
Stop às leis transfóbicas e para quando uma lei contra a transfobia?
Ou para os países que ainda não legislaram transfobia:
Para quando uma lei contra a transfobia?
Este caso não é específico a Portugal, é internacional e a luta deve ser feita em conjunto.
(A nível prático, organizar em pequenos grupos em lugares distintos será mais simples que pedir às pessoas que se mobilizem às embaixadas portuguesas que estão concentradas nas capitais)
Pedimos que difundam esta acção, que a façam participada e que nos façam chegar testemunhos, fotos, artigos, etc. a panteras.lisboa@gmail.com
A iniciativa partirá de numerosos pequenos e grandes grupos no maior número de cidades possível.
Com cartazes, frente à embaixada ou consulado de Portugal nas cidades onde estes existam, ou em praças frente a ministérios europeus, frente a hospitais psquiátricos ou onde quer que a homofobia se construia.
Sugerimos estas frases:
Luna trans 42 anos brasileira, prostituta assassinada em Lisboa.
Estatisticamente quão maior é o risco de um(a) trans ser agredido comparativamente a ti? E assassinado?
Conforme o país, propomos a frase:
Stop às leis transfóbicas e para quando uma lei contra a transfobia?
Ou para os países que ainda não legislaram transfobia:
Para quando uma lei contra a transfobia?
Este caso não é específico a Portugal, é internacional e a luta deve ser feita em conjunto.
(A nível prático, organizar em pequenos grupos em lugares distintos será mais simples que pedir às pessoas que se mobilizem às embaixadas portuguesas que estão concentradas nas capitais)
Pedimos que difundam esta acção, que a façam participada e que nos façam chegar testemunhos, fotos, artigos, etc. a panteras.lisboa@gmail.com
2 anos após Gisberta, a transfobia volta a matar
Dois anos depois do brutal assassinato de Gisberta, no Porto, outra mulher transexual foi assassinada e o cadáver encontrado num contentor de entulho na zona de Lisboa, na passada semana.
Sucederam-se outros crimes que estão a chocar o país. Mas a onda de violência não pode esconder as vítimas nem a natureza dos crimes. Este é o caso de, Luna, de 42 anos, com surdez parcial, de origem brasileira, há muitos anos residente e trabalhadora em Portugal, prostituía-se no Conde Redondo.
Dois anos depois de Gisberta, os e as transsexuais continuam a ser alvo de violência e do ódio gerado pela incompreensão e o preconceito. Nada sabemos sobre o crime que a vitimou nem sobre as suas motivações. Esperamos que a investigação do caso pela PJ possa dar estas respostas, mas sabemos que a transfobia mata e que as pessoas trans estão muito mais sujeitas a violência do que as demais. Sabemos que a prostituição é muitas vezes um recurso de quem não tem outras formas de ganhar a vida e que é dramático ter um género diferente daquele que o corpo sugere. Sabemos também que o preconceito e a discriminação são generalizados, que a ignorância alimenta o ódio e gera a violência. Sabemos que o Estado, a sociedade, todos nós, temos responsabilidades para com as vítimas mortais e sobretudo para com todas as outras que levam uma vida em que luta pela sobrevivência coexiste com o medo e com os riscos que o originam.
Luna nasceu mulher; o seu corpo, masculino, estava errado para a sua identidade. Era acompanhada no Hospital de Santa Maria pela equipa multidisciplinar de alteração de corpo, tinha projectos, desejos e frustrações como todas as pessoas. Tinhas pessoas que lhe queriam bem e talvez quisesse voltar para o Brasil onde está a sua família. Luna foi uma mulher que lutou contra muitas dificuldades e, segundo os jornais, morreu vítima de grande violência, possivelmente alimentada por ódio, preconceito e ignorância. O seu corpo foi deixado num contentor de entulho, oculto por pedras e pó, como se fosse lixo, como se a sua vida não tivesse valido a pena.
Como todas as vítimas potenciais, os e as trans precisam de formas de protecção que lhes garantam igualdade de oportunidades e a possibilidade de uma vida digna. Precisam, como qualquer pessoa, de poder exercer o seu direito ao desenvolvimento da personalidade e à autodeterminação – de poder escolher livremente o seu próprio nome; não precisam (ninguém precisa!) de documentos de identificação que insistam em usar um critério tão vazio de conteúdo real como “sexo” (mesmo se disfarçado de “nome”) e que “justifiquem”, por exemplo, a colocação de uma trans numa cela com homens. Os e as trans precisam de ser vistos como pessoas com direitos e obrigações, nem menos nem mais que todas as outras. Os e as trans em Portugal precisam da pedagogia da visibilidade, muito para além dos circuitos da prostituição ou do espectáculo nocturno. E Portugal precisa de ver estas pessoas sem o olhar do preconceito e do medo.
A identidade de género é um assunto que o Estado tarda a legislar e esse atraso agrava as condições de vida e sobrevivência de muitos trans. Para quando as correcções legais que possibilitem o real exercício da cidadania pelas pessoas transsexuais e transgéneros? Para quando legislação que ultrapasse a retrogradação e o conservantismo de tantas e tantos políticos e deixe de impor restrições mesquinhas? Para quando legislação que deixe de alimentar a violência psicológica quotidiana sobre estas pessoas? Para quando legislação que considere explicitamente como agravante a discriminação, o assédio e a violência com base na transfobia? Para quando um compromisso a sério para acabar com casos como o da Gisberta ou de Luna, pessoas assassinadas pelo ódio transfóbico? Para quando mais meios humanos e melhor formação cívica e técnica nas forças policiais? Para quando abordagens de cooperação em vez das abordagens agressivas que ainda subsistem nalguns elementos das várias polícias?
As Panteras Rosa – Frente de combate à GayLesBiTransfobia, reafirmam o seu compromisso com a luta contra a transfobia em todas as suas formas e rendem homenagem a Luna, prostituta na nossa cidade, mulher porque sim!
Lisboa, 13 de Março 2008
Sucederam-se outros crimes que estão a chocar o país. Mas a onda de violência não pode esconder as vítimas nem a natureza dos crimes. Este é o caso de, Luna, de 42 anos, com surdez parcial, de origem brasileira, há muitos anos residente e trabalhadora em Portugal, prostituía-se no Conde Redondo.
Dois anos depois de Gisberta, os e as transsexuais continuam a ser alvo de violência e do ódio gerado pela incompreensão e o preconceito. Nada sabemos sobre o crime que a vitimou nem sobre as suas motivações. Esperamos que a investigação do caso pela PJ possa dar estas respostas, mas sabemos que a transfobia mata e que as pessoas trans estão muito mais sujeitas a violência do que as demais. Sabemos que a prostituição é muitas vezes um recurso de quem não tem outras formas de ganhar a vida e que é dramático ter um género diferente daquele que o corpo sugere. Sabemos também que o preconceito e a discriminação são generalizados, que a ignorância alimenta o ódio e gera a violência. Sabemos que o Estado, a sociedade, todos nós, temos responsabilidades para com as vítimas mortais e sobretudo para com todas as outras que levam uma vida em que luta pela sobrevivência coexiste com o medo e com os riscos que o originam.
Luna nasceu mulher; o seu corpo, masculino, estava errado para a sua identidade. Era acompanhada no Hospital de Santa Maria pela equipa multidisciplinar de alteração de corpo, tinha projectos, desejos e frustrações como todas as pessoas. Tinhas pessoas que lhe queriam bem e talvez quisesse voltar para o Brasil onde está a sua família. Luna foi uma mulher que lutou contra muitas dificuldades e, segundo os jornais, morreu vítima de grande violência, possivelmente alimentada por ódio, preconceito e ignorância. O seu corpo foi deixado num contentor de entulho, oculto por pedras e pó, como se fosse lixo, como se a sua vida não tivesse valido a pena.
Como todas as vítimas potenciais, os e as trans precisam de formas de protecção que lhes garantam igualdade de oportunidades e a possibilidade de uma vida digna. Precisam, como qualquer pessoa, de poder exercer o seu direito ao desenvolvimento da personalidade e à autodeterminação – de poder escolher livremente o seu próprio nome; não precisam (ninguém precisa!) de documentos de identificação que insistam em usar um critério tão vazio de conteúdo real como “sexo” (mesmo se disfarçado de “nome”) e que “justifiquem”, por exemplo, a colocação de uma trans numa cela com homens. Os e as trans precisam de ser vistos como pessoas com direitos e obrigações, nem menos nem mais que todas as outras. Os e as trans em Portugal precisam da pedagogia da visibilidade, muito para além dos circuitos da prostituição ou do espectáculo nocturno. E Portugal precisa de ver estas pessoas sem o olhar do preconceito e do medo.
A identidade de género é um assunto que o Estado tarda a legislar e esse atraso agrava as condições de vida e sobrevivência de muitos trans. Para quando as correcções legais que possibilitem o real exercício da cidadania pelas pessoas transsexuais e transgéneros? Para quando legislação que ultrapasse a retrogradação e o conservantismo de tantas e tantos políticos e deixe de impor restrições mesquinhas? Para quando legislação que deixe de alimentar a violência psicológica quotidiana sobre estas pessoas? Para quando legislação que considere explicitamente como agravante a discriminação, o assédio e a violência com base na transfobia? Para quando um compromisso a sério para acabar com casos como o da Gisberta ou de Luna, pessoas assassinadas pelo ódio transfóbico? Para quando mais meios humanos e melhor formação cívica e técnica nas forças policiais? Para quando abordagens de cooperação em vez das abordagens agressivas que ainda subsistem nalguns elementos das várias polícias?
As Panteras Rosa – Frente de combate à GayLesBiTransfobia, reafirmam o seu compromisso com a luta contra a transfobia em todas as suas formas e rendem homenagem a Luna, prostituta na nossa cidade, mulher porque sim!
Lisboa, 13 de Março 2008
Puzzle
Se "o poder é uma relação, não uma coisa", porque insistimos em falar de sexo como uma coisa?
Que eu saiba, a tradição assume que os generos entre os animais estão marcados em termos biológicos, e que ainda assim, apesar de morfologicamente, hormonalmente marcados, estão sujeitos à evolução e adaptação ambiental. Que sempre são relações de poder, de estratégia individual. Sexo não é nenhum modelo de previsibilidade, ainda que apresente constâncias.
Entre as gentes, o que a gente conhece é uma luta pelas constâncias.
Há, aparentemente, uma constancia na ideia de sexo, que é a de especialização. Que num dado momento, a lógica de consumo se acrescente com a lógica da produção; isso acontece em todos os seres que não se dividem, e no caso interessam-nos os que não são hermafroditas, que estão especializados de vez, machos e fêmeas "como" os humanos. Nestes casos, as fêmeas alternam ciclos de consumo e produção, porque todos estes seres passam pela infância.
Dizem os doutores que a cultura começou com o tabú do sexo de forma a criar as condições para a monogamia, ie: a regulação comunal, consensual, de quem faz aquilo que faz filhos com quem (faz filhos). E aquilo que faz filhos, aquilo que produz(!), essa parcela problemática de minutos (bem, já estão a ver onde eu quero chegar), passou a definir o lugar das pessoas no grupo. Não às recompensas hormonais, sim ao lugar certo, aquele que representa a minha função na sociedade.
Consenso, constância, são elementos essenciais da solidariedade. O movimento LGBT busca acima de tudo a solidariedade, a reposição da condição de pessoa; e aprende-se nele ao longo do tempo onde está o pomo da discordia. Um deles é o amor, esse subproduto moderno da quebra de relações familiares extensas, cujo reconhecimento( !) implica que a solidariedade entre os dois generos se expresse ao nível das afinidades pessoais, tarefa tão valorizada quanto a assimetria comportamental dos generos é regra. O outro, a procriação, cujo pensamento actual ainda tende a evitar as estratégias que não representem o reforço(!) do peso natural de acompanhar uma infância (...);
@ bissexual parece ter a "tarefa" facilitada mas não tem. Onde a despatologizaçã o da homossexualidade está mais concretizada, a solidariedade intra-genero reforça-se agradavelmente, mas há dados momentos em que a solidariedade entre os generos não podia estar mais perdida. Onde há patologização da homosexualidade, a solidariedade entre os generos decorre no ocultamento e nos mecanismos tradicionais, ou seja, através da relação erótica "a contrato" e suas fraudes (já dizia o outro, muçulmano, poligamia al capone, a poligamia ocidental, reconhecendo as semelhanças e as diferenças).
@ bi vive zonas cinzentas onde a deserotização de um dos generos joga frequentemente contra a sua presença a outros níveis propriamente sociais, e neste sentido, pensar bi é ter consciencia do cruzamento erostismo-poder- grupo, um pensar ao alcance de tod@s. É Bi-narismo, mas...
rosa-que-fuma
Que eu saiba, a tradição assume que os generos entre os animais estão marcados em termos biológicos, e que ainda assim, apesar de morfologicamente, hormonalmente marcados, estão sujeitos à evolução e adaptação ambiental. Que sempre são relações de poder, de estratégia individual. Sexo não é nenhum modelo de previsibilidade, ainda que apresente constâncias.
Entre as gentes, o que a gente conhece é uma luta pelas constâncias.
Há, aparentemente, uma constancia na ideia de sexo, que é a de especialização. Que num dado momento, a lógica de consumo se acrescente com a lógica da produção; isso acontece em todos os seres que não se dividem, e no caso interessam-nos os que não são hermafroditas, que estão especializados de vez, machos e fêmeas "como" os humanos. Nestes casos, as fêmeas alternam ciclos de consumo e produção, porque todos estes seres passam pela infância.
Dizem os doutores que a cultura começou com o tabú do sexo de forma a criar as condições para a monogamia, ie: a regulação comunal, consensual, de quem faz aquilo que faz filhos com quem (faz filhos). E aquilo que faz filhos, aquilo que produz(!), essa parcela problemática de minutos (bem, já estão a ver onde eu quero chegar), passou a definir o lugar das pessoas no grupo. Não às recompensas hormonais, sim ao lugar certo, aquele que representa a minha função na sociedade.
Consenso, constância, são elementos essenciais da solidariedade. O movimento LGBT busca acima de tudo a solidariedade, a reposição da condição de pessoa; e aprende-se nele ao longo do tempo onde está o pomo da discordia. Um deles é o amor, esse subproduto moderno da quebra de relações familiares extensas, cujo reconhecimento( !) implica que a solidariedade entre os dois generos se expresse ao nível das afinidades pessoais, tarefa tão valorizada quanto a assimetria comportamental dos generos é regra. O outro, a procriação, cujo pensamento actual ainda tende a evitar as estratégias que não representem o reforço(!) do peso natural de acompanhar uma infância (...);
@ bissexual parece ter a "tarefa" facilitada mas não tem. Onde a despatologizaçã o da homossexualidade está mais concretizada, a solidariedade intra-genero reforça-se agradavelmente, mas há dados momentos em que a solidariedade entre os generos não podia estar mais perdida. Onde há patologização da homosexualidade, a solidariedade entre os generos decorre no ocultamento e nos mecanismos tradicionais, ou seja, através da relação erótica "a contrato" e suas fraudes (já dizia o outro, muçulmano, poligamia al capone, a poligamia ocidental, reconhecendo as semelhanças e as diferenças).
@ bi vive zonas cinzentas onde a deserotização de um dos generos joga frequentemente contra a sua presença a outros níveis propriamente sociais, e neste sentido, pensar bi é ter consciencia do cruzamento erostismo-poder- grupo, um pensar ao alcance de tod@s. É Bi-narismo, mas...
rosa-que-fuma
Não é bem assim...
Se eu fundar uma comuna, ou um apartamento com amigos para poupar dinheiro, nao vou ter os mesmos incentivos fiscais e "apoios á família" do que um casal "casado" ou em uniao de facto.
Porque é que eu, como figura fiscal/legal "mulher solteira" tenho de estar mais fragilisada perante a sociedade do alguém que esteja casado com aquela teia de protecção legal toda á volta deles?
é realmente minha escolha ser solteira ou permanecer solteira (são na verdade duas coisas diferentes), mas perturba-me o assegurar de privilégios, que estão a ser confundidos com direitos, que outros tenham, sejam heteros ou não.
Mais ainda perturba-me que o Estado reconheça apenas essa forma de emocionalidade como válida. Porque é que eu não posso passar procurações médicas a amigos escolhidos a dedo (ou seja, se eu ficar em coma, porque é que são os meus pais a decidir "desligar a maquina" em vez de ser quem eu quero)? porque é que as minhas disposições testamenteiras são passadas a ferro no caso de eu ser solteira (se eu morrer os meus pais herdam sempre uma parte independentemente do que está no meu testamento), e um bocadinho mais levadas a sério se eu estiver casada?
Porque é que uma criança só pode ser adoptada por um casal? o que é que ha de menos respeitável/ético em pessoas não casadas?
Perturba me ainda mais que não perturbe mais gente ainda, que o Estado esteja a dizer com isto, com a figura do casamento, que todas as outras formas de estar são toleradas, mas não são a certa. e isso incluindo ser solteiro, viuvo, já nem falo de comunas, engenharia social ou famílias estendidas, com relações não monogamicas ou não...
Reconheço sem duvida o impulso que leva pares que se gostam a casar. E enquanto a lei for assim, ficarei contente por eles e irei festejar com eles em toda a sinceridade. Ficarei, quase em contradição comigo, contente quando os primeiros casais do mesmo género se casarem em Portugal, porque indicará um avanço das mentalidades, e porque esses nubentes estarão mais feliz nesse dia do que noutros.
O casamento é um atentado ás liberdades individuais porque nos diz que um individuo só, um cidadão, não é suficiente como entidade e que precisa de se comportar de uma certa maneira para ser completo e útil á sociedade.
Sendo assim sou e serei politicamente sempre e constantemente contra a figura do casamento, por não ter cabidela numa sociedade que se quer igualitária e democrática.
Obrigada por lerem.
Antidote,
www.laundrylst.blogspot
Porque é que eu, como figura fiscal/legal "mulher solteira" tenho de estar mais fragilisada perante a sociedade do alguém que esteja casado com aquela teia de protecção legal toda á volta deles?
é realmente minha escolha ser solteira ou permanecer solteira (são na verdade duas coisas diferentes), mas perturba-me o assegurar de privilégios, que estão a ser confundidos com direitos, que outros tenham, sejam heteros ou não.
Mais ainda perturba-me que o Estado reconheça apenas essa forma de emocionalidade como válida. Porque é que eu não posso passar procurações médicas a amigos escolhidos a dedo (ou seja, se eu ficar em coma, porque é que são os meus pais a decidir "desligar a maquina" em vez de ser quem eu quero)? porque é que as minhas disposições testamenteiras são passadas a ferro no caso de eu ser solteira (se eu morrer os meus pais herdam sempre uma parte independentemente do que está no meu testamento), e um bocadinho mais levadas a sério se eu estiver casada?
Porque é que uma criança só pode ser adoptada por um casal? o que é que ha de menos respeitável/ético em pessoas não casadas?
Perturba me ainda mais que não perturbe mais gente ainda, que o Estado esteja a dizer com isto, com a figura do casamento, que todas as outras formas de estar são toleradas, mas não são a certa. e isso incluindo ser solteiro, viuvo, já nem falo de comunas, engenharia social ou famílias estendidas, com relações não monogamicas ou não...
Reconheço sem duvida o impulso que leva pares que se gostam a casar. E enquanto a lei for assim, ficarei contente por eles e irei festejar com eles em toda a sinceridade. Ficarei, quase em contradição comigo, contente quando os primeiros casais do mesmo género se casarem em Portugal, porque indicará um avanço das mentalidades, e porque esses nubentes estarão mais feliz nesse dia do que noutros.
O casamento é um atentado ás liberdades individuais porque nos diz que um individuo só, um cidadão, não é suficiente como entidade e que precisa de se comportar de uma certa maneira para ser completo e útil á sociedade.
Sendo assim sou e serei politicamente sempre e constantemente contra a figura do casamento, por não ter cabidela numa sociedade que se quer igualitária e democrática.
Obrigada por lerem.
Antidote,
www.laundrylst.blogspot
Não têm clubes de Cruising
Não têm clubes de cruising, saunas, drag kings, travecas de rua ou carrossel. No que toca ao consumo pornográfico, surgem na categoria hetero, no gaydar são 50 nos dias (muito) bons, e têm direito a menos consumos gratuitos. São os parentes pobres dos gays na sociedade de consumo.
Haverá muitas razões para isso, a primeira de todas o facto de ganharem até menos 20% que os homens, ainda independentemente da orientação sexual.
Pergunta-se até à nausea se as lesbicas são feministas, com o mesmo ar motivador de quem pergunta "gostas mais da mamã ou do papá?", de quem quer obrigar a representar. Eu explico: são as condições materiais de existencia, a satisfação/reconhecim ento de necessidades que definem o poder. Actualmente, já só é possível ser feminista ou dogmático da inferioridade da mulher, cumprir a constituição ou alterá-la segundo o dogma (ou ficar quietinho à espera que ELAS, as mulheres façam uma das duas, e não se comprometer a uma queda auto inflingida).
Assim como nos anos vinte se chamava sangue ou raça à cultura, discutindo-se se a judeídade passava pela mãe ou pelo pai, pela educação ou pela herança, hoje em dia levamos com a urgencia da espécie, sempre em estado de sobrevivencia, com a sobrepopulação, seu contrário que dá no mesmo, com o colapso da segurança social ou renovação de gerações, com a natalidade como fenómeno estatístico, popula-ção, popula-ção de um território, não como fenomeno pessoal. Perguntar se mulheres e reprodução são uma combinação eterna é chamar sangue à cultura. As mulheres geram, não reproduzem, e sim, faz parte do bolo das necessidades ignoradas como intrínsecas a este ser enrolado num falso neutro. Pode é não gerar. Pode nem sequer educar ninguém, ser misantropa e até ermita. Isso não tem nada a ver com passar a ferro a roupa dos carecas enquanto criança. Não tem nada a ver com a actual performatividade da diferença, voluntária ou inevitável.
Eco-nomia traduz-se como "gestão do lar", e as rAlações da política sexual só passaram a criar sentido quando as relações de produção passaram do lar para a industria, quando o investimento do poder na segunda afrouxou o controlo no primeiro, deixando um vazio entre ambas. Ficaram lá os costumes como "regra até prova em contrário", tanto os costumes da legitimação, como os de ilegitimidade (vossa senhora, até a gramática!); a figura económica da mulher ainda anda aí enredada, e não raro disputada. L e G são a mesma coisa em LGBT? São mesmo lidos em termos de homosexualidade ou esta ultima é um eufemismo, um máximo denominador comum? Senhores, os vossos textos lesbicos, já de seguida.
Rosa que Fuma.
Haverá muitas razões para isso, a primeira de todas o facto de ganharem até menos 20% que os homens, ainda independentemente da orientação sexual.
Pergunta-se até à nausea se as lesbicas são feministas, com o mesmo ar motivador de quem pergunta "gostas mais da mamã ou do papá?", de quem quer obrigar a representar. Eu explico: são as condições materiais de existencia, a satisfação/reconhecim ento de necessidades que definem o poder. Actualmente, já só é possível ser feminista ou dogmático da inferioridade da mulher, cumprir a constituição ou alterá-la segundo o dogma (ou ficar quietinho à espera que ELAS, as mulheres façam uma das duas, e não se comprometer a uma queda auto inflingida).
Assim como nos anos vinte se chamava sangue ou raça à cultura, discutindo-se se a judeídade passava pela mãe ou pelo pai, pela educação ou pela herança, hoje em dia levamos com a urgencia da espécie, sempre em estado de sobrevivencia, com a sobrepopulação, seu contrário que dá no mesmo, com o colapso da segurança social ou renovação de gerações, com a natalidade como fenómeno estatístico, popula-ção, popula-ção de um território, não como fenomeno pessoal. Perguntar se mulheres e reprodução são uma combinação eterna é chamar sangue à cultura. As mulheres geram, não reproduzem, e sim, faz parte do bolo das necessidades ignoradas como intrínsecas a este ser enrolado num falso neutro. Pode é não gerar. Pode nem sequer educar ninguém, ser misantropa e até ermita. Isso não tem nada a ver com passar a ferro a roupa dos carecas enquanto criança. Não tem nada a ver com a actual performatividade da diferença, voluntária ou inevitável.
Eco-nomia traduz-se como "gestão do lar", e as rAlações da política sexual só passaram a criar sentido quando as relações de produção passaram do lar para a industria, quando o investimento do poder na segunda afrouxou o controlo no primeiro, deixando um vazio entre ambas. Ficaram lá os costumes como "regra até prova em contrário", tanto os costumes da legitimação, como os de ilegitimidade (vossa senhora, até a gramática!); a figura económica da mulher ainda anda aí enredada, e não raro disputada. L e G são a mesma coisa em LGBT? São mesmo lidos em termos de homosexualidade ou esta ultima é um eufemismo, um máximo denominador comum? Senhores, os vossos textos lesbicos, já de seguida.
Rosa que Fuma.
Casamento
O casamento de pessoas do mesmo sexo enquanto pequenino passo pelo fim
da ditadura do binarismo de género
No comunicado de imprensa pantérico sobre os projectos de lei de
alargamento do casamento civil a duos do mesmo sexo pode ler-se «o
Parlamento tem agora uma oportunidade para legislar no sentido da
efectiva laicização do Estado e do combate à discriminação em função
do sexo atribuído à nascença ou do sexo das pessoas que amam.»
O «sexo atribuído à nascença» parece ter confundido algumas pessoas,
pelo que tentei explicar o sentido de tal redacção.
X não poder casar com Y por causa do sexo não é um problema só do sexo
que atribuíram a Y. Isto é, o problema não é "só" X amar alguém do
sexo tal. É-o igualmente ter sido atribuído a X o sexo tal (e ninguém
perguntou nada a X antes de declarar que teria esse sexo). Ambas as
coisas são a mesma trampa (e ao mesmo tempo são diferentes). Ambas
impedem X de casar com Y e ambas são originadas pela mesma concepção
da organização social e pela mesma visão do mundo (social e "natural")
e, ao mesmo tempo, ambas são distintas e ocorrem em "momentos da vida
legal" (à falta de melhor expressão) específicos.
Por outro lado o sentido do «sexo atribuído à nascença» não se esgota
no caso das identidades transexuais nem há no texto (parece-me) nada
que o indique.
Nem sequer se esgota no leque nas identidades trans não transexuais
(aquelas que são "ainda mais" desviantes do sacrossanto binarismo de
género que tentam impingir-nos todos os dias).
Em função do sexo que @ sotôr(a) te atribui à nascença assim podes ou
tens de fazer certas coisas (ou não).
Um exemplo:
A X é atribuído o sexo masculino. Só por isso X será alvo de
determinadas acções (em casa, na escola, na rua, na tv) no sentido de
o/a formatarem para ser um "menino". Também só por isso X ficará numa
listinha para ser chamado ir à tropa em caso de guerra. No caso de X
ter nascido com genitália "ambígua" provavelmente os paizinhos vão
ficar desorientados e o talhante de serviço no hospital vai impor uma
cirurgia "correctiva" (sem que X tenha sequer oportunidade de saber o
que vai ser quando crescer, quanto mais de emitir opiniões sobre a
"correcção").
Ao legislar (ainda que pontual e debilmente) no sentido de sermos
tod@s "malta" aos olhos da lei – como no caso de o casamento deixar de
ser entre senhor e uma senhora [1] para passar a ser entre quaisquer
duas pessoas – dá-se um pequenino passo no sentido de mandar às
urtigas a importância (para a lei) de X ser do sexo A, B ou C (sim, eu
sei que não há nenhum C na lei).
Ou ainda de outro ângulo:
A e B não podem casar porque são dois homens do sexo masculino. É a
homofobia nas leis.
X e Y não podem casar porque são duas mulheres do sexo masculino.
Mesmo que pudessem mudar de sexo continuariam a não poder casar. É a
homofobia nas leis.
M e N não podem casar porque M é um homem do sexo masculino e N é uma
mulher do sexo masculino (o sexo aqui é aquela reles categoria
burocrática sem grande sentido mas com grandes consequências) . É a
homofobia *e* a transfobia nas leis. Se N pudesse mudar de sexo (coisa
tramada nos tribunais tugas) estava o assunto desse casamento
resolvido.
Mas nas raízes da homo e da transfobia destes 3 casos há uma que é
comum: ambas as fobias são construídas a partir de uma ideologia que
determina que há dois (e só dois) sexos, que as esses dois sexos só
podem corresponder dois papéis sociais (um para cada sexo) e que esses
papéis são "naturalmente" complementares (o guerreiro e a fada-do-lar,
o caçador e a recolectora, o dominante e a dominada, o assalariado e a
doméstica... – sim, podem existir excepções, mas o sistema dominante é
patriarcal).
Alargar o casamento a duos do mesmo sexo é uma martelada na
"naturalidade" da complementaridade dos géneros. Ainda não põe em
xeque a ideia de que os géneros estão "naturalmente" associados ao
sexo nem a ideia de que só há dois (que sejam lícitos/correctos/
saudáveis) . Mas já abre uma rachazita nese castelo ideológico que nos
lixa a vida e nos mói a cabeça todos os dias.
Não gosto destes mini-ataques às mijinhas. Mas vejo uma ligação (ainda
que não de causa/efeito) entre o gesto de alargar o casamento a duos
do mesmo sexo (sou pela abolição do casamento civil, já agora) e o
combate a um sistema de ideias que também alimenta as transfobias [2]
ao criar determinadas categorias e hierarquias entre essas categorias.
1) senhora e senhores "normais", claro – creio que quando o Américo
Thomaz promulgou o Código Civil em 1966 ninguém pensou n@s senhoras/es
transexuais, intersexuais ou "genderqueer" de alguma forma
2) e a coisa não se esgota na transfobia de "normais" contra trans –
também existe, por exemplo, da parte de algumas pessoas já submetidas
às cirurgias de construção genital contra as pessoa transexuais
não-operad@s (o que, creio, felizmente não é a regra)
_________________________________
Pela abolição do casamento civil
Na recente novela do casamento vimos de tudo. Até vimos paladin@s do
conservadorismo populista a defender o casamento entre pessoas do
mesmo sexo – desde que tenha um nome diferente de "casamento".
Do PS nem vale a pena falar. A série de idiotices do
concordo-mas-vou-proibir fala por si. A disciplina de voto só para
alguns é absurda. As desculpas esfarrapadas sobre o "oportunismo" de
pequenos partidos (os projectos de lei foram entregues no Parlamento
há dois anos!) não conseguiram esconder que foi tudo meducho de perder
os votos de gentinha torpe para o PSD nas três eleições de 2009.
O PEV acha inconstitucional não estender o casamento a duos do mesmo
sexo – mas no mesmo projecto de lei queria proibir a possibilidade de
duas pessoas do mesmo sexo adoptarem em conjunto. Aquilo que hoje é
uma possibilidade só de casad@s passaria a ser uma possibilidade só
para *algumas/uns* casad@s. Enfim, combater uma expressão de homofobia
legitimando outra parece-me incoerente.
No discurso de encerramento das jornadas contra a homofobia, na
FCSH-UNL, o Francisco Louçã arengou contra a discriminação e acabou
por se contradizer ao prometer lutar pelo alargamento do casamento a
duos do mesmo sexo. Trata-se também de uma medida ainda
discriminatória por reiterar e continuar a legitimar o princípio
ideológico de que "2 é melhor que 3, ou 4, ou...".
Não compete ao Estado propor pacotes de regras pré-definidos
moralizantes. Quero poder escolher livremente as regras por que se
regem as minhas relações. Quero poder decidir que X me visita no
hospital, Y na prisão, que Z herda a casa e que toda a gente fode com
quem quiser sem ter indemnizar @s outr@s por "delito de adultério".
Querem mesmo lutar contra a discriminação?
Lutem pela abolição do casamento civil! Lutem pela liberdade de poder
decidir quem herda a minha tralha, pela liberdade de deserdar @s
ascendentes e irmã(o)s. Lutem pela liberdade de foder (ou não foder)
com quem quiser. Lutem pela liberdade de poder escolher quem me visita
no hospital e na prisão. Lutem pela liberdade de poder escolher a quem
concedo poderes de representação/ procuração para "desligar a
máquina". Lutem pelo fim da discriminação no imposto de selo sobre
doações. Lutem por todas essa discriminações que decorrem da ideologia
fundamental do casamento (monossexual, monogâmico, procriador,
pretensamente superior, pretensamente biológico, pretensamente
fundamental para a vida em sociedade).
Garantir alguns direitos (como alguns direitos relacionados com a
transmissão de bens ou a justificação de faltas para cuidar da
família, por exemplo) apenas sob condição de se viver assim ou assado
é execrável. Como o é sempre qualquer discriminação (negativa) de
estado.
Atacar o casamento civil é «atacar a sociedade»? Porreiro, pá! Porque
não é esta sociedade que quero. E vós?
da ditadura do binarismo de género
No comunicado de imprensa pantérico sobre os projectos de lei de
alargamento do casamento civil a duos do mesmo sexo pode ler-se «o
Parlamento tem agora uma oportunidade para legislar no sentido da
efectiva laicização do Estado e do combate à discriminação em função
do sexo atribuído à nascença ou do sexo das pessoas que amam.»
O «sexo atribuído à nascença» parece ter confundido algumas pessoas,
pelo que tentei explicar o sentido de tal redacção.
X não poder casar com Y por causa do sexo não é um problema só do sexo
que atribuíram a Y. Isto é, o problema não é "só" X amar alguém do
sexo tal. É-o igualmente ter sido atribuído a X o sexo tal (e ninguém
perguntou nada a X antes de declarar que teria esse sexo). Ambas as
coisas são a mesma trampa (e ao mesmo tempo são diferentes). Ambas
impedem X de casar com Y e ambas são originadas pela mesma concepção
da organização social e pela mesma visão do mundo (social e "natural")
e, ao mesmo tempo, ambas são distintas e ocorrem em "momentos da vida
legal" (à falta de melhor expressão) específicos.
Por outro lado o sentido do «sexo atribuído à nascença» não se esgota
no caso das identidades transexuais nem há no texto (parece-me) nada
que o indique.
Nem sequer se esgota no leque nas identidades trans não transexuais
(aquelas que são "ainda mais" desviantes do sacrossanto binarismo de
género que tentam impingir-nos todos os dias).
Em função do sexo que @ sotôr(a) te atribui à nascença assim podes ou
tens de fazer certas coisas (ou não).
Um exemplo:
A X é atribuído o sexo masculino. Só por isso X será alvo de
determinadas acções (em casa, na escola, na rua, na tv) no sentido de
o/a formatarem para ser um "menino". Também só por isso X ficará numa
listinha para ser chamado ir à tropa em caso de guerra. No caso de X
ter nascido com genitália "ambígua" provavelmente os paizinhos vão
ficar desorientados e o talhante de serviço no hospital vai impor uma
cirurgia "correctiva" (sem que X tenha sequer oportunidade de saber o
que vai ser quando crescer, quanto mais de emitir opiniões sobre a
"correcção").
Ao legislar (ainda que pontual e debilmente) no sentido de sermos
tod@s "malta" aos olhos da lei – como no caso de o casamento deixar de
ser entre senhor e uma senhora [1] para passar a ser entre quaisquer
duas pessoas – dá-se um pequenino passo no sentido de mandar às
urtigas a importância (para a lei) de X ser do sexo A, B ou C (sim, eu
sei que não há nenhum C na lei).
Ou ainda de outro ângulo:
A e B não podem casar porque são dois homens do sexo masculino. É a
homofobia nas leis.
X e Y não podem casar porque são duas mulheres do sexo masculino.
Mesmo que pudessem mudar de sexo continuariam a não poder casar. É a
homofobia nas leis.
M e N não podem casar porque M é um homem do sexo masculino e N é uma
mulher do sexo masculino (o sexo aqui é aquela reles categoria
burocrática sem grande sentido mas com grandes consequências) . É a
homofobia *e* a transfobia nas leis. Se N pudesse mudar de sexo (coisa
tramada nos tribunais tugas) estava o assunto desse casamento
resolvido.
Mas nas raízes da homo e da transfobia destes 3 casos há uma que é
comum: ambas as fobias são construídas a partir de uma ideologia que
determina que há dois (e só dois) sexos, que as esses dois sexos só
podem corresponder dois papéis sociais (um para cada sexo) e que esses
papéis são "naturalmente" complementares (o guerreiro e a fada-do-lar,
o caçador e a recolectora, o dominante e a dominada, o assalariado e a
doméstica... – sim, podem existir excepções, mas o sistema dominante é
patriarcal).
Alargar o casamento a duos do mesmo sexo é uma martelada na
"naturalidade" da complementaridade dos géneros. Ainda não põe em
xeque a ideia de que os géneros estão "naturalmente" associados ao
sexo nem a ideia de que só há dois (que sejam lícitos/correctos/
saudáveis) . Mas já abre uma rachazita nese castelo ideológico que nos
lixa a vida e nos mói a cabeça todos os dias.
Não gosto destes mini-ataques às mijinhas. Mas vejo uma ligação (ainda
que não de causa/efeito) entre o gesto de alargar o casamento a duos
do mesmo sexo (sou pela abolição do casamento civil, já agora) e o
combate a um sistema de ideias que também alimenta as transfobias [2]
ao criar determinadas categorias e hierarquias entre essas categorias.
1) senhora e senhores "normais", claro – creio que quando o Américo
Thomaz promulgou o Código Civil em 1966 ninguém pensou n@s senhoras/es
transexuais, intersexuais ou "genderqueer" de alguma forma
2) e a coisa não se esgota na transfobia de "normais" contra trans –
também existe, por exemplo, da parte de algumas pessoas já submetidas
às cirurgias de construção genital contra as pessoa transexuais
não-operad@s (o que, creio, felizmente não é a regra)
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Pela abolição do casamento civil
Na recente novela do casamento vimos de tudo. Até vimos paladin@s do
conservadorismo populista a defender o casamento entre pessoas do
mesmo sexo – desde que tenha um nome diferente de "casamento".
Do PS nem vale a pena falar. A série de idiotices do
concordo-mas-vou-proibir fala por si. A disciplina de voto só para
alguns é absurda. As desculpas esfarrapadas sobre o "oportunismo" de
pequenos partidos (os projectos de lei foram entregues no Parlamento
há dois anos!) não conseguiram esconder que foi tudo meducho de perder
os votos de gentinha torpe para o PSD nas três eleições de 2009.
O PEV acha inconstitucional não estender o casamento a duos do mesmo
sexo – mas no mesmo projecto de lei queria proibir a possibilidade de
duas pessoas do mesmo sexo adoptarem em conjunto. Aquilo que hoje é
uma possibilidade só de casad@s passaria a ser uma possibilidade só
para *algumas/uns* casad@s. Enfim, combater uma expressão de homofobia
legitimando outra parece-me incoerente.
No discurso de encerramento das jornadas contra a homofobia, na
FCSH-UNL, o Francisco Louçã arengou contra a discriminação e acabou
por se contradizer ao prometer lutar pelo alargamento do casamento a
duos do mesmo sexo. Trata-se também de uma medida ainda
discriminatória por reiterar e continuar a legitimar o princípio
ideológico de que "2 é melhor que 3, ou 4, ou...".
Não compete ao Estado propor pacotes de regras pré-definidos
moralizantes. Quero poder escolher livremente as regras por que se
regem as minhas relações. Quero poder decidir que X me visita no
hospital, Y na prisão, que Z herda a casa e que toda a gente fode com
quem quiser sem ter indemnizar @s outr@s por "delito de adultério".
Querem mesmo lutar contra a discriminação?
Lutem pela abolição do casamento civil! Lutem pela liberdade de poder
decidir quem herda a minha tralha, pela liberdade de deserdar @s
ascendentes e irmã(o)s. Lutem pela liberdade de foder (ou não foder)
com quem quiser. Lutem pela liberdade de poder escolher quem me visita
no hospital e na prisão. Lutem pela liberdade de poder escolher a quem
concedo poderes de representação/ procuração para "desligar a
máquina". Lutem pelo fim da discriminação no imposto de selo sobre
doações. Lutem por todas essa discriminações que decorrem da ideologia
fundamental do casamento (monossexual, monogâmico, procriador,
pretensamente superior, pretensamente biológico, pretensamente
fundamental para a vida em sociedade).
Garantir alguns direitos (como alguns direitos relacionados com a
transmissão de bens ou a justificação de faltas para cuidar da
família, por exemplo) apenas sob condição de se viver assim ou assado
é execrável. Como o é sempre qualquer discriminação (negativa) de
estado.
Atacar o casamento civil é «atacar a sociedade»? Porreiro, pá! Porque
não é esta sociedade que quero. E vós?
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